por: fred d´orey
publicado em: 12/2006





Muitas vezes as experiências mais interessantes de uma surf trip não são os tubos, nem as batidas, nem o sol se pondo dentro d’agua. Mas são essas coisas que nos levam a agitar um empréstimo com o pai, empacotar as pranchas e botar o pé na estrada. A perspectiva de pegar tubos insanos e de ficar exausto depois de um final de tarde alucinante nos deixa loucos. Por isso partimos. Saímos em busca daquilo que não encontramos em casa. E a sorte dos surfistas é que essas ondas acontecem bem longe da estrada principal. A gente tá sempre se metendo em buracos e barracos do 3º mundo em busca da tal onda perfeita. E acontece cada coisa que papaimamãetitia nem imaginam.
 
Eu já sabia que na Libéria o buraco seria bem mais embaixo, mas nada me preparou pra aquela primeira noite. Sendo a Monrovia uma das cidades mais perigosas do mundo, o plano original era correr da capital antes do anoitecer. Mas estávamos em plena crise israel-líbano, e justo naquele dia os libaneses, que controlam o pouco do que sobrou da destroçada economia liberiana, fecharam seus mercados mais cedo e foram pra porta da embaixada americana protestar.  Sem mantimentos, tivemos que aceitar o convite do nosso guia local, Dominic, de dormir em sua casa, e fazer as compras no dia seguinte. Mas quando o carro foi adentrando algo parecido com a favela da maré a coisa passou de folclórica a perigosa em minutos. Os habitantes do lugar vieram ver o que era. Mas nada de sorrisos.
 
Nós eramos cinco gringos carregados de equipamentos e pranchas, bem alimentados, e eles eram os sobreviventes de mais de vinte anos de constantes chacinas. A instrução de Dominic era tirar tudo do carro o mais rápido possível antes que juntasse mais gente. A casa não tinha nem janelas nem móveis. As crianças vagaram o único quarto, esticamos as capas de prancha e, desafiando o intenso cheiro de nhaca e mofo, tentamos dormir suando em bicas. No meio da noite, gritos ao redor da casa, discussão acalorada, garrafas explodindo contra a nossa parede. Parecia coisa de grupos de adolescentes depois de muitos drinks voltando de uma festa. Mas não era bem isso. No dia seguinte, dominic, com duas enormes olheiras, me contou oque se passou. Os caras queriam derrubar a porta e nos saquear, mas Dominic montou guarda com dois enormes pedaços de madeira e os fez mudar de idéia. Ele sabia que aquilo poderia acontecer e nos protegeu.
 
Já em Robertsport fomos tratados como reis, principalmente pelas crianças, que nos adoravam. Elas cercavam o acampamento do amanhecer ao por do sol. Nos seguiam em nossas caminhadas, traziam amendoas, côco, e ajudavam a carregar o equipamento do John. Vibravam com o nosso surf. Nós eramos muito diferentes do que estavam acostumadas, mas só mais tarde percebi a intensidade desse fascínio. Uma noite, depois do jantar, chovia leve, e o gerador ainda funcionava. Debaixo de uma tenda de lona, nos espremiamos em frente ao Mac do fotógrafo pra ver as fotos do dia. Olhei pra traz e percebi algo na escuridão. Fui mais perto. Liguei a lanterna na direção da praia. Não acreditei em cena mais hilária e querida. Oito muleques sentados em dois improvisados bancos de madeira, debaixo de chuva, nos assistiam tal qual a uma sessão de cinema. Eles na total escuridão e nós éramos o filme. Quando a lanterna os flagrou, abriram o maior dos sorrisos, entre sem graça e felizes por terem sido descobertos. Crianças são crianças em qualquer lugar do mundo, e serão eles os futuros ‘donos’ do pico. Com certeza um dia irão se lembrar dos gringos que apareceram por ali pela primeira vez no longinquo ano de 2006.
 
Mas depois de doze dias dormindo no chão, meu corpo pedia cama e lençóis limpos. Tinha lido na internet que pelo menos um hotel havia sobrevivido à guerra.  Na última noite dei a notícia-’não sei sobre vocês mas eu vou pro Royal Hotel’. No dia seguinte, os caras me deixaram no Royal (que de royal não tinha nada, mas a cama pelo menos era limpa) e foram dormir no chão da casa de um mssionário canadense (como eles se arrependeram…). Combinamos de jantar no sushi bar do Royal, que um polonês tinha mencionado, ainda no avião. “Talvez em nova york tenha algo parecido”, ele disse. Como assim? Fiquei com aquilo na cabeça. O telefone tocou e eu desci pra encontrar meus companheiros no tal sushi. Uma placa anunciava seu nome- Living Room. Abri a porta. Foi como se tivesse entrado em outra dimensão. Me deparei com um lounge maravilhoso e música alta. Mulheres lindas com saias curtas, negões estilo puff dady, libaneses com correntes de ouro e rolex no pulso conversavam animadamente pelos sofás. No salão principal, uma chinesa top model me encaminhou à mesa. Meus parceiros de trip não acreditavam no que estavam vendo e vivendo. Seus queixos caídos diante de tanto bom gosto e opulência. O som era perfeito, moderno, eletrônico. A decoração com sua luz baixa, paredes de veludo vermelhas e piso preto, me faziam lembrar night clubs londrinos. As mesas estavam lotadas, o restaurante bombava. Então era assim que a elite se divertia em países destroçados? Do lado de fora, altos muros e homens fortemente armados impedem a massa miserável de entrar. Que contraste absurdo. A primeira, a última e a noite das crianças não podiam ser mais diferentes. Mas as três compoem o quebra cabeça de uma surf trip, de uma país chamado Libéria e do mundo como o construímos.