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Até os dois anos meu filho era o terror da pracinha. Jogava areia na turma. Chutava a bola pra longe. Tomava o brinquedo das outras crianças e não devolvia. Quando tentavam resgatar, Martim empurrava, muito sério, em tom desafiador, e ficava olhando a reação, de choro, sempre. Ele gostava de sentir esse poder, de ser o dono daquele espacinho. Mas a vida não é assim. É preciso educar as crianças enquanto ainda são crianças pra que não dêem trabalho mais tarde. Uma criança que cresce sem limite quase sempre se torna um adulto problema. E aí não vai ser mais o pai quem vai dar a dura e botar de castigo, mas a vida, a justiça, a polícia.
O havaiano Sunny Garcia deve ter crescido tomando a bola dos outros. Ele não deve ter tido ninguém pra lhe dizer uma coisa tão simples quanto- ‘a bola não é sua, vc não pode pegar’. Ou- ‘espere a sua vez como todo mundo, você não é o centro do universo’. Ou- ‘ jogar areia nos outros é errado, não faça mais isso’. E é por essas e outras que ele se comporta como um sujeito arrogante e prepotente no universo do surf. O cara afronta organizadores de campeonatos, juízes, competidores, haoles, meninas. Passou na frente dele, o cara atropela. Sempre com aquele semblante de poucos amigos, aquela marra. A última de Garcia foi em Mentawaii nessa temporada 2006, quando o seu barco, cheio de maus elementos como ele, aterrorizaram o line up em todas as caídas, espancando e expulsando os outros surfistas. Maior vexame, passaportes apreendidos, tiveram que ser escoltados pela guarda costeira indonesiana mais cedo pra casa.
Nas internas é comum escutar as últimas de Sunny. O cara fez isso, fez aquilo, insultou o organizador dos campeonatos Triple Crown e muitos etc. Nesse último ano, dois videos amadores circularam na internet. Em um, Garcia agredia covardemente um bodyboarder, em outro, o cara socava um surfista. Sunny não é assim nenhum Rickson Gracie, o lendário faixa preta de jiu jitsu, e só se comporta dessa forma porque seus ‘amigos seguranças’ estão por perto. O mais absurdo é que todo mundo da indústra do surf sabe o quão desagradável é o comportamento desse havaiano, mas não se lê nas revistas nem uma linha sequer sobre suas covardices. É como se elas nunca tivessem acontecido.
O mundo do surf pode até ser bonzinho com o mimado Sunny Garcia, mas a justiça americana tá pouco se lixando se o cara arrebenta em Backdoor ou se ele foi campeão do mundo em 2000. Na corte ninguém se intimida com a cara feia de Sunny, nem tem medo de levar uma dura mais tarde. Garcia sonegou impostos e vai passar seis meses em prisão federal, mais sete meses confinado em casa, além de ter que pagar multas e impostos atrasados em cima de U$ 417.000 que ele ‘esqueceu’ de declarar.
Por medo de represálias, a sentença de Sunny tem sido comemorada a boca miuda. Mas é consenso geral que o havaiano merecia ganhar uma dura faz tempo. O problema é que é bem provável que ele não mude em nada, afinal Garcia não dançou por ser covarde. É certeza que irá voltar pro pico achando que todas as ondas do planeta continuam suas. Que o fato de ser havaiano lhe serve de prerrogativa pra tomar a onda e a paz de quem estiver por perto.
Justiça seja feita, Sunny Garcia não inventou esse modo de ser havaiano. Ele é apenas o mais recente e visível expoente. A lista é longa. Muitos, por envolvimento com drogas e armas já estão atrás das grades. Mas até quando a indústria do surf vai ficar dando guarita pra esses bandidos disfarçados de surfista? Patrocinar surfistas do mal deveria ser péssimo pra imagem das empresas, certo? Mas pra isso acontecer as revistas terão que sair de cima do muro e reportar o que realmente acontece no submundo do surf. O leitor precisa saber a verdade sobre os seus ídolos.
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