por: fred d´orey
publicado em: 12/2007





Só fui descobrir anos depois, mas a minha primeira prancha de surf era tão ruim quanto era linda. Me lembro que dentre tantas nos racks das surf shops, foi ela e apenas ela que me deixou hipnotizado. Não queria saber de mais nenhuma. Eu queria muito aquela roxinha . Com uma sugestiva pintura psicodélica, aquela Pacific Vibration falsificada era pra mim uma tremenda Ferrari, e muito me ajudou no primeiro ano de surf, até ficar completamente inchada com uma enorme bolha de ar e quebrar ao meio.  O fato dela ser o maior toco e muito parecida com uma tampa de caixão não fazia a menor diferença pra mim. Eu achava ela linda e isso bastava.

As próximas duas seguiram na mesma linha. Lindonas, e horríveis.  Rabetinha estreita, grossa no meio, bordão, elas eram tudo que um muleque de pouco mais de dez anos não deveria desejar. Elas davam de borda sem parar, mas eu as amava assim mesmo. Afinal, elas eram lindas. E eu, lógico, não entendia nada de pranchas.

Os anos foram se passando, virei profissional, fiz parte de equipes, tive que pensar em quivers, e me relacionar com shapers. E essa era a parte mais difícil e delicada da minha nova vida. Pegar tubo em pé? Mole. Batidão na cara? Tranquilo. Lidar com o crowd do Arpoador? Sem problema. Administrar a cabeça numa bateria difícil? Faz parte. Agora, entender de prancha sempre foi mistério dos mistérios. Não um qualquer , mas o maior enigma do surf pra mim.

Nunca entendi nada disso. Invejava, secretamente, parceiros e adversários que ficavam horas discorrendo sobre o futuro do rocker, por exemplo. Rocker pra mim era Mick Jagger, ora bolas. Espessuras, bicos, rabetas, kicktails (golpe de karatê?), posicionamento de quilhas, caimento das bordas, edges (guitarrista do U2?), curva de fundos, melhores blocos pra se shapear- tudo grego pra mim. Por mais que me esforçasse, esse universo de medidas e curvaturas não entrava na cabeça nem por um decreto. Fiquei anos fingindo que entendia, driblando situações embaraçosas, enganando aqueles que sabiam ainda menos do que eu e pediam minha opinião sobre suas pranchas.  Na real, tinha era vergonha de ser surfista profissional e de não entender do assunto. Achava um mico.

Foi só outro dia que consegui tirar esse peso das costas. Li na Mojo que o Roger Waters, baixista e principal compositor do Pink Floyd, tinha complexo de inferioridade porque não sabia ler música e que só resolveu esse problema quando, recentemente, Eric Clapton lhe disse: “Você compôs muitas das músicas mais importantes do século XX e é um grande músico. Nunca deixe ninguém te dizer o contrário”. Caçamba, como pode um cara como o Roger Waters, responsável pela obra prima Dark Side Of The Moon, entre tantas outras, que vendeu milhões de discos e é incensado por meio mundo, ser inseguro como músico? E se ele que é o Roger Waters pode, eu que não sou ninguém também posso com essa estória de prancha.

Mas o melhor foi que, ao aceitar essa minha deficiência, eu finalmente compreendi que não tenho que entender de prancha coisíssima nenhuma.  Assim como um músico não precisa saber como funciona seu instrumento. Só precisa tocar. Eu também, só preciso surfar. Quem tem que entender de prancha são os shapers. Eles é que têm a obrigação de me decifrar, entender o meu surf, a minha necessidade, e fazer a prancha certa. Eu preciso é de um shaper que me salve do embaraço de ter que ficar explicando como eu quero a prancha. Chega a ser ridículo, é um tal de  “…ah…faz …uma solta e... rápida….e que seja…segura e não dê de borda….e que tenha boa remada….e que segure no tubo… e que...ah...faz uma vermehinha boa e não me enche!”.